Reparou se na sua rua alguém de alguma casa de veraneio não foi embora? Quem sabe um casal de aposentados atrás de tranquilidade, uma viúva que queria ficar mais perto dos filhos, um surfista inconformado em morar longe das ondas, os pais que anseiam proporcionar mais qualidade de vida aos filhos.
Antes de se mudar pra cá, minha companheira brincava que sua felicidade seria ir na ponta da Enseada domingo abanar pros curitibanos que retornavam pra cidade depois de um final de semana na praia. Ao contrário de alguns iludidos, ela não desistiu de ficar por aqui ao primeiro vento Sul do inverno. Seduzidos pela agitação do verão, há quem, ao mudar-se pro litoral, se frustre a partir de abril com a desaceleração da rotina, a falta do que fazer, a umidade, o frio, a carência de lazer.
Costumo dizer que gosto da temporada só nas primeiras duas semanas. Rever amigos, a praia cheia, o fervo da noite, as cantorias no quiosque da Praia Grande. Depois enjoo. Março é demais! Um resquício do verão bom. Tem sol, a água do mar ainda não gelou, tem caiaque pra alugar e o tiozinho da sunga preta ainda pode ser visto catando latinhas e maratonando ao mesmo tempo. Março também é a hora de garçons, ambulantes, hoteleiros e repositores descansarem. Me agrada nessa época, também, ver menos gente. Dá pra ficar mais próximo dos de sempre. Os encontros acontecem com mais tempo; com mais calmaria. Até o vendedor de cocadas pode oferecer provinhas à clientela sem se angustiar com a fila que se forma em meio minuto num intervalo entre Natal e Ano Novo. A temporada é desgastante. Por outro lado, o faturamento despenca e inúmeros postos de trabalho precisam ser fechados.
Também preciso dizer que é muito significativo não ser acordado num domingo de manhã por uma Jenifer vomitada por uma das milhares de caixinhas JBL presenteadas no dia 24 de dezembro. Fato, aliás, que motiva dezenas de incomodados a teclarem 190 no pico da temporada. E, se a chance de uma viatura ir checar a denúncia de perturbação do sossego às vezes já é improvável nesse período, o que dizer após o fim da Operação Veraneio? Pensa que é fácil proteger todo o balneário com apenas uma guarnição na patrulha? Não querendo ser pessimista, a UPA, que fica com um médico ao invés de dois passado o furdunço também não é fato digno de menos lamento.
Ainda assim, depois do Carnaval é mais fácil estacionar o carro, encontrar pão fresco na padaria e não temer a falta de água.
Viver em São Chico é muito bom. Dá contentamento. Pena que nossos olhos podem, pela repetição, banalizar um por do sol na Praia do Mota ou a cachoeira da Vila da Glória. Eles, os olhos — aliás, todos os sentidos —, vivem perseguindo novos estímulos.
Que nos lembremos de contemplar esse lugar. Em qualquer estação.
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| Paisagens campestres como a do Parque Acaraí só enriquecem a diversidade francisquense (Foto: Mariana Hoefel) |

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Expresse-se. Mas, se eu precisar lembrá-lo/a de ser educado/a, já me assusta o que sairá de ti.