12.out.2013
Se sentia ou não saudade não ficou claro. Mas lembrou-se de como era a voz, os trejeitos, a ginga de malandro.
Passava manteiga às vezes nuns três, quatro pães em um mesmo dia e saciava-lhe a fome. Talvez, fosse ele bonito, alguma televisão já teria, altruisticamente, se esforçado para reinseri-lo entre os homens de bem e relatar a saga num domingo à noite de pouca pauta.
Já deixava, dona Lea e os colegas do bar do Macuco, no Mercado Municipal, um saco com alguns pães separados. Para o caso de o negrinho de dentes amarelados parar por ali, o que não rareava.
Silvinei vivia pelo Mercado. Na verdade, vivia por todos os cantos do Centro Histórico de São Chico. Não era invisível como a maioria dos moradores de rua. A cidade era a casa dele. Parte da vida passou sem porta, janela, cama ou privada.
Geralmente respeitador; conversador; de tom de voz baixo, que subiu na noite em que o vi no Virado no Alho cantando sucessivas músicas no caraoquê.
No final da manhã da sexta passada, Tereza pedia a dona Lea a colaboração espontânea para um terceiro cigarro. Argumentou que o seu havia esquecido não sei onde. (Sua capacidade de comunicação é bem inferior ao do falecido Silvinei, que, diferentemente de Tereza – personalidade do centro novo –, ficava com a saúde mental abalada apenas quando se drogava.)
Dona Lea suspeita que Tereza esteja atrás de novos ares; que ela queira ocupar a lacuna deixada por “Foguinho”, alcunha (ou uma das, de Silvinei).
Ele, já esquecido. Tereza, também será ao morrer. Eu também. Você? Também. As minhocas e suas amigas não adotarão o critério de divisão de classe ou de cor de pele, e não hesitarão em devorar a cada um poucas horas depois de nosso corpo físico — como os cigarros de Tereza — apagar.
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Expresse-se. Mas, se eu precisar lembrá-lo/a de ser educado/a, já me assusta o que sairá de ti.